{"id":34905,"date":"2020-05-01T15:39:23","date_gmt":"2020-05-01T18:39:23","guid":{"rendered":"https:\/\/alacip.org\/?p=34905"},"modified":"2020-05-01T16:03:19","modified_gmt":"2020-05-01T19:03:19","slug":"divulgacao-do-livro-classes-medias-e-politica-no-brasil-1922-2016-editora-fgv-adalberto-cardoso-iesp-uerj","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/alacip.org\/?p=34905","title":{"rendered":"Divulga\u00e7\u00e3o do livro \u00abClasses m\u00e9dias e pol\u00edtica no Brasil: 1922-2016\u00bb (Editora FGV) &#8211; Adalberto Cardoso (IESP-UERJ)"},"content":{"rendered":"\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"725\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/alacip.org\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Livro-Adalberto-1-725x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-34907\" srcset=\"https:\/\/alacip.org\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Livro-Adalberto-1-725x1024.jpg 725w, https:\/\/alacip.org\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Livro-Adalberto-1-213x300.jpg 213w, https:\/\/alacip.org\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Livro-Adalberto-1-768x1084.jpg 768w, https:\/\/alacip.org\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Livro-Adalberto-1.jpg 960w\" sizes=\"auto, (max-width: 725px) 100vw, 725px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong>Sinopse<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O car\u00e1ter majorit\u00e1rio de classe m\u00e9dia dos movimentos de junho de 2013 (uma s\u00e9rie de mobiliza\u00e7\u00f5es de rua que transformou profundamente a cena pol\u00edtica brasileira e que foi iniciado na cidade de S\u00e3o Paulo entre 6 e 13 de junho em rea\u00e7\u00e3o ao aumento de vinte centavos nas tarifas de \u00f4nibus) se aprofundaria nos meses e anos seguintes. Aumentaria, tamb\u00e9m, a polariza\u00e7\u00e3o e a radicaliza\u00e7\u00e3o dos movimentos, que culminariam nas grandes manifesta\u00e7\u00f5es pr\u00f3 e contra o impeachment da presidenta Dilma Rousseff em 2015 e 2016, todas elas com n\u00edtido perfil de classe m\u00e9dia, segundo as pesquisas dispon\u00edveis e que ser\u00e3o detidamente analisadas aqui. O que teria levado as classes m\u00e9dias uma vez mais \u00e0s ruas para afirmar, nelas e n\u00e3o pelos canais da institucionalidade democr\u00e1tica, suas prefer\u00eancias pol\u00edticas?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong>Apresenta\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEm maio de 2016, ao discutir com Edmond Pr\u00e9teceille vers\u00e3o preliminar do livro que est\u00e1vamos escrevendo juntos sobre classes m\u00e9dias no Brasil, ele me perguntou: \u201cMas e a pol\u00edtica? N\u00e3o podemos escrever um livro sobre classes m\u00e9dias sem discutir sua atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica\u201d. Comecei, ent\u00e3o, a escrever um cap\u00edtulo sobre isso para nosso livro conjunto (Cardoso e Pr\u00e9teceille, 2020). Contudo, o que era para ser um cap\u00edtulo curto acabou se avolumando, e o resultado \u00e9 o livro que o leitor tem em m\u00e3os\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim come\u00e7a o novo livro de Adalberto Cardoso, Classes m\u00e9dias e pol\u00edtica o Brasil: 1922-2016, publicado pela Editora FGV em formato digital e em breve tamb\u00e9m impresso.<\/p>\n\n\n\n<p>Em seu primeiro cap\u00edtulo, a obra recupera uma pequena parcela da discuss\u00e3o internacional sobre a rela\u00e7\u00e3o entre classes m\u00e9dias e pol\u00edtica, com um olhar de longa dura\u00e7\u00e3o em modo \u201cvoo de p\u00e1ssaro\u201d, fazendo dialogar argumentos de autores t\u00e3o d\u00edspares quanto Arist\u00f3teles, Alexis de Tocqueville, Karl Marx, Charles Wright Mills, Scott Lash e Klaus Eder, dentre outros, para trazer \u00e0 superf\u00edcie da an\u00e1lise sociol\u00f3gica a centralidade das classes m\u00e9dias nas din\u00e2micas social e pol\u00edtica da ordem burguesa, bem como suas metamorfoses no tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>Na hist\u00f3ria brasileira, ap\u00f3s esta contextualiza\u00e7\u00e3o, Cardoso investiga a a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica das classes m\u00e9dias no per\u00edodo denominado por ele como \u201clongo ciclo de Vargas\u201d, que tem in\u00edcio com as revoltas tenentistas de 1922 e termina com o golpe militar de 1964.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m fazem parte da abordagem a rela\u00e7\u00e3o entre classes m\u00e9dias e pol\u00edtica durante a ditadura militar-civil, termo utilizado pelo autor, quando as classes m\u00e9dias estiveram majoritariamente com os militares por todo o per\u00edodo, com aten\u00e7\u00e3o a uma propor\u00e7\u00e3o n\u00e3o desprez\u00edvel em oposi\u00e7\u00e3o, como o movimento estudantil de classe m\u00e9dia e na luta armada, tamb\u00e9m majoritariamente desta classe.<\/p>\n\n\n\n<p>A sequ\u00eancia traz uma incurs\u00e3o no debate sobre o golpe parlamentar que derrubou Dilma Rousseff em 2016, do ponto de vista do papel das classes m\u00e9dias no processo de polariza\u00e7\u00e3o que \u00e9 qualificado pelo autor como momen\u00adto serend\u00edpico das rela\u00e7\u00f5es de classe. Cardoso argumenta que a conjuntura 2013-2016 foi t\u00edpica dos processos de forma\u00e7\u00e3o de classe, nos quais coletivos em luta constroem identidades coletivas referenciadas nos advers\u00e1rios e na disputa pela determina\u00e7\u00e3o dos rumos a serem dados ao pa\u00eds, isto \u00e9, no \u00e2m\u00adbito da pol\u00edtica como lugar de defini\u00e7\u00e3o dos fins da a\u00e7\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Classes m\u00e9dias e pol\u00edtica no Brasil: 1922-2016&nbsp;<\/strong>trata da atua\u00e7\u00e3o&nbsp;das classes m\u00e9dias no&nbsp;Brasil (no plural mesmo por causa da&nbsp;multiplicidade e heterogeneidade de seus engajamentos) em diversos momentos da nossa hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Lan\u00e7amos hoje em formato digital em nosso site e nas principais lojas de ebooks (Amazon, iBooks e Google Play) e assim que a situa\u00e7\u00e3o normalizar a obra estar\u00e1 dispon\u00edvel no formato impresso.<\/p>\n\n\n\n<p>Confira abaixo um trecho da introdu\u00e7\u00e3o da obra:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Em junho de 2013, uma s\u00e9rie de mobiliza\u00e7\u00f5es de rua transformou profun\u00addamente a cena pol\u00edtica brasileira.&nbsp;Inaugurou-se ineg\u00e1vel ciclo de protestos (Tarrow, 1995), cujo estopim foi aceso pelo Movimento Passe Livre (MPL),&nbsp;que saiu \u00e0s ruas de S\u00e3o Paulo entre 6 e 13 de junho em rea\u00e7\u00e3o ao aumento de R$ 0,20 (vinte centavos) nas tarifas de \u00f4nibus. A violenta repress\u00e3o policial que se abateu sobre os manifestantes, que resultou na pris\u00e3o de centenas de ativistas, al\u00e9m de provocar ferimentos em outros tantos, trouxe \u00e0s ruas levas de pessoas de in\u00edcio solid\u00e1rias aos jovens do MPL, mas que em seguida amplia\u00adram sobremaneira os temas em disputa. O \u00e1pice das mobiliza\u00e7\u00f5es ocorreu em 20 de junho, quando pelo menos um milh\u00e3o de brasileiros\/as tomou as ruas em mais de cem cidades, portando cartazes e faixas com os mais diferentes dizeres, alguns coletados por Andr\u00e9 Singer:<\/p><p>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; \u201cCopa do Mundo eu abro m\u00e3o, quero dinheiro pra sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o\u201d, \u201cQueremos hospitais padr\u00e3o Fifa\u201d, \u201cO gigante acordou\u201d, \u201cIa ixcrever augu legal, maix faut\u00f4&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;edukss\u00e3o\u201d, \u201cN\u00e3o \u00e9 mole, n\u00e3o. Tem dinheiro pra est\u00e1dio e cad\u00ea a educa\u00e7\u00e3o\u201d, \u201cEra um pa\u00eds muito engra\u00e7ado, n\u00e3o tinha escola, s\u00f3 tinha est\u00e1dio\u201d, \u201cTodos contra a cor\u00adrup\u00e7\u00e3o\u201d, \u201cFora Dilma! Fora Cabral! PT = Pilantragem e Trai\u00e7\u00e3o\u201d, \u201cFora Alckmin\u201d, \u201cZ\u00e9 Dirceu, pode esperar, tua hora vai chegar\u201d [Singer, 2013:25].<\/p><p>Os movimentos de junho politizaram a vida cotidiana de maneira impre\u00advista em sua dimens\u00e3o e pluralidade, e logo ficou claro que a popula\u00e7\u00e3o estava nas ruas por muito mais do que os vinte centavos de aumento dos \u00f4nibus paulistanos.&nbsp;An\u00e1lises mais finas dos acontecimentos mostraram que o tema da corrup\u00e7\u00e3o ganhou crescente visibilidade nos protestos, e, nas grandes marchas de junho de 2013, ao menos em S\u00e3o Paulo metade dos manifestantes disse estar ali para protestar contra a corrup\u00e7\u00e3o nos governos do Partido dos Trabalhadores (Tatagiba, 2017).<\/p><p>Pesquisas feitas no calor da hora em v\u00e1rias cidades do pa\u00eds durante as manifesta\u00e7\u00f5es constru\u00edram o perfil dos participantes. Singer (2013) sintetizou algumas delas. Em S\u00e3o Paulo e Belo Horizonte mais de 50% tinham 25 anos de idade ou menos, contra 41% no Rio de Janeiro. Pesquisa do Ibope em oito capitais encontrou a cifra de 43% com idade entre 14 e 24 anos. Logo, em 20 de junho os manifestantes eram majoritariamente jovens. Al\u00e9m disso, na pesquisa Ibope, 43% tinham diploma universit\u00e1rio, e era residual a presen\u00e7a de pessoas com ensino fundamental. Em S\u00e3o Paulo a propor\u00e7\u00e3o de pessoas com educa\u00e7\u00e3o superior se aproximou de 80%, e 66% em Belo Horizonte. E mais, apenas 15% dos que foram \u00e0s ruas nas oito capitais cobertas pelo Ibope tinham renda familiar de dois sal\u00e1rios m\u00ednimos ou menos. Isso levou Singer a concluir pela \u201cvirtual aus\u00eancia da base da pir\u00e2mide social brasileira nas manifesta\u00e7\u00f5es\u201d (idem:28). As ruas foram tomadas por jovens de fam\u00edlias de classe m\u00e9dia e alta, particularmente em S\u00e3o Paulo e Belo Horizonte.<\/p><p>O car\u00e1ter majorit\u00e1rio de classe m\u00e9dia dos movimentos de junho se apro\u00adfundaria nos meses e anos seguintes. Aumentaria, tamb\u00e9m, a polariza\u00e7\u00e3o e a radicaliza\u00e7\u00e3o dos movimentos, que culminariam nas grandes manifesta\u00e7\u00f5es pr\u00f3 e contra o impeachment da presidenta Dilma Rousseff em 2015 e 2016, todas elas com n\u00edtido perfil de classe m\u00e9dia, segundo as pesquisas dispon\u00edveis e que ser\u00e3o detidamente analisadas aqui. O que teria levado as classes m\u00e9dias uma vez mais \u00e0s ruas para afirmar, nelas e n\u00e3o pelos canais da instituciona\u00adlidade democr\u00e1tica, suas prefer\u00eancias pol\u00edticas?<\/p><p>A pergunta tem elementos que cabe esclarecer. \u00c9 fato que as classes m\u00e9dias foram \u201cuma vez mais\u201d \u00e0s ruas, e novamente mobilizando milh\u00f5es de pessoas.<\/p><p>Eventos semelhantes ocorreram em 1964, nas \u201cMarchas da Fam\u00edlia com Deus pela Liberdade\u201d, nos protestos contra a ditadura militar-civil em 1968, no movimento pelas \u201cDiretas J\u00e1\u201d em 1984 e nas mobiliza\u00e7\u00f5es pelo impeachment de Fernando Collor de Melo em 1992. Em todos esses casos os movimentos foram liderados por segmentos das classes m\u00e9dias, ou foram por eles en\u00adcampados logo que ganharam visibilidade p\u00fablica. E as classes m\u00e9dias n\u00e3o se bateram pelas mesmas causas: em 1964 apoiaram os militares contra Jo\u00e3o Goulart, em 1968 parte delas estava com as esquerdas contra a ditadura, em 1984 marcharam com as demais for\u00e7as populares pela democracia, em 1992 expressaram sua indigna\u00e7\u00e3o moral contra a corrup\u00e7\u00e3o, algo que voltaria a mobiliz\u00e1-las de 2013 em diante.<\/p><p>Se os temas e as motiva\u00e7\u00f5es variaram, assim como a composi\u00e7\u00e3o interna das classes m\u00e9dias, a ida \u00e0s ruas teve sempre o mesmo prop\u00f3sito: for\u00e7ar os incumbentes do poder a mudar o curso das pol\u00edticas p\u00fablicas, ou tentar destitu\u00ed-los caso a mudan\u00e7a n\u00e3o se mostrasse vi\u00e1vel. Na experi\u00eancia brasileira recente, as classes m\u00e9dias que se mobilizaram e foram \u00e0s ruas conseguiram seu intento (destituir governos) sob a democracia (Jango, Collor e Dilma), mas n\u00e3o conseguiram mudar o curso das pol\u00edticas, ao menos no caso da ditadura de 1964 (protestos de 1968 e Diretas J\u00e1).<\/p><p>O segundo elemento da pergunta \u00e9 mais complexo, e \u00e9 o motivo pelo qual resolvi escrever este livro. Ele op\u00f5e, como formas distintas de participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, as ruas e os movimentos que nela expressam interesses, identidades, vis\u00f5es de mundo e poder de arregimenta\u00e7\u00e3o e mobiliza\u00e7\u00e3o coletiva; e a insti\u00adtucionalidade democr\u00e1tica, isto \u00e9, o acesso a inst\u00e2ncias decis\u00f3rias no aparelho de Estado por meio de elei\u00e7\u00f5es, a altern\u00e2ncia no poder que isso eventualmente proporcione, a formula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas nas inst\u00e2ncias representativas da\u00ed decorrentes etc. As duas coisas n\u00e3o s\u00e3o, obviamente, excludentes. \u00c9 f\u00e1cil demonstrar que o povo nas ruas foi ator central no aprofundamento e conso\u00adlida\u00e7\u00e3o das democracias do ocidente como regimes pol\u00edticos mais inclusivos e ordenamentos econ\u00f4micos mais igualit\u00e1rios (Thompson, 1987; Pateman, 1992; Feres J\u00fanior e Pogrebinschi, 2010). Isso inclui o Brasil (Oliveira, 2002). Mas \u00e9 f\u00e1cil demonstrar, tamb\u00e9m, que as mobiliza\u00e7\u00f5es coletivas (as ruas) nem sempre t\u00eam no horizonte o aperfei\u00e7oamento, o aprofundamento ou a melhoria da ordem democr\u00e1tica. Vivemos o contr\u00e1rio disso no Brasil em conjunturas dram\u00e1ticas como o suic\u00eddio de Get\u00falio Vargas em 1954, o golpe militar-civil de 1964 e novamente os golpes parlamentares de 1992 contra Collor e de 2016 contra Dilma Rousseff, todos apoiados por segmentos muito mobilizados das classes m\u00e9dias. Nesses casos de derrubada de governos, esses segmentos se bateram contra a institucionalidade democr\u00e1tica, e fizeram-no convo\u00adcando agentes do pr\u00f3prio aparelho de Estado (os militares, o parlamento, o judici\u00e1rio) a voltar-se contra os incumbentes do poder executivo, ao passo em que, nas ruas, procuraram arregimentar o apoio de outras classes sociais, sobretudo as classes mais altas. Apenas a luta contra a ditadura militar-civil de 1964 teve no horizonte a restaura\u00e7\u00e3o das \u201cliberdades democr\u00e1ticas\u201d, lema da resist\u00eancia \u00e0 ditadura a partir de meados da d\u00e9cada de 1970, como veremos. S\u00e3o esses distintos engajamentos de diferentes setores das classes m\u00e9dias e seus impactos na vida pol\u00edtica da na\u00e7\u00e3o que cumpre explicar.<\/p><p>Dizendo mais enfaticamente: defendo o ponto de vista de que as classes m\u00e9dias foram atores decisivos nas conjunturas mais cr\u00edticas da constru\u00e7\u00e3o na\u00adcional. Contudo, sua import\u00e2ncia para a din\u00e2mica pol\u00edtica e a evolu\u00e7\u00e3o social do pa\u00eds esteve muito longe de ser devidamente reconhecida por nossas ci\u00eancias sociais. Contam-se nos dedos os estudos que t\u00eam na rela\u00e7\u00e3o dessas classes com a pol\u00edtica o objeto principal de an\u00e1lise. Este livro se pretende modesta contribui\u00e7\u00e3o a esse campo, por injusti\u00e7a, t\u00e3o pouco atraente. Espero trazer elementos que contribuam para elucidar aspectos que julgo centrais da tensa rela\u00e7\u00e3o das classes m\u00e9dias com a pol\u00edtica, tanto no que respeita \u00e0 identidade dessas classes como para os processos sociais e pol\u00edticos que delas se alimentam.<\/p><p><strong>Uma pol\u00edtica de classe?<\/strong><\/p><p>As classes m\u00e9dias t\u00eam sido tratadas por parte da literatura mais tradicional sobre as lutas de classes no pa\u00eds, como segmentos ou estratos de classe que nun\u00adca dispuseram de projeto pol\u00edtico pr\u00f3prio, estando, por isso, dispon\u00edveis para engajamentos m\u00faltiplos e vari\u00e1veis segundo as conjunturas, posicionando-se de forma pragm\u00e1tica em rela\u00e7\u00e3o ao que D\u00e9cio Saes (1984), por exemplo, no\u00admeia de conflito principal no capitalismo, que op\u00f5e burguesia e proletariado. Al\u00e9m disso, para Saes, autor da mais importante contribui\u00e7\u00e3o sobre o tema no pa\u00eds, a a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica das classes m\u00e9dias seria autorit\u00e1ria por natureza, j\u00e1 que, ocupando posi\u00e7\u00f5es de mando nas empresas ou no aparelho de Estado, consi\u00adderariam hierarquia, subordina\u00e7\u00e3o e coer\u00e7\u00e3o de trabalhadores subordinados elementos \u201cnaturais\u201d do funcionamento tamb\u00e9m das sociedades, estando, por isso, mais propensas a dar suporte a regimes e movimentos autorit\u00e1rios.<\/p><p>Essa leitura j\u00e1 n\u00e3o pode ser sustentada. Primeiro, porque trata de forma homog\u00eanea universo muito heterog\u00eaneo de posi\u00e7\u00f5es de classe, como mos\u00adtrado em Cardoso e Pr\u00e9teceille (2020) e aprofundado no cap\u00edtulo I desta publica\u00e7\u00e3o. Como tal, as classes m\u00e9dias (ou \u201ccamadas m\u00e9dias\u201d como prefere Saes, que emprega o termo \u201cclasse\u201d apenas para burguesia e proletariado) s\u00e3o uma constru\u00e7\u00e3o artificial e vazia. Em segundo lugar, o sentido de \u201cprojeto pol\u00edtico pr\u00f3prio\u201d \u00e9 devedor de certa leitura da luta de classes que supunha que o operariado era o sujeito portador da hist\u00f3ria, isto \u00e9, da transforma\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria do capitalismo, sendo este seu projeto hist\u00f3rico pr\u00f3prio, ou ancorado em sua condi\u00e7\u00e3o objetiva de classe. E os capitalistas tamb\u00e9m teriam o seu, baseado na manuten\u00e7\u00e3o da propriedade e da explora\u00e7\u00e3o do trabalho, para o que necessitavam controlar o Estado e seus mecanismos de domina\u00e7\u00e3o. Este seria o \u201cconflito principal\u201d do capitalismo. O projeto pol\u00edtico \u201cpr\u00f3prio\u201d, pois, era em grande medida uma constru\u00e7\u00e3o do analista.<\/p><p>Depois da cr\u00edtica de Edward P. Thompson (1987), esse ponto de vista perdeu valor heur\u00edstico. O historiador marxista mostrou que a consci\u00eancia e os projetos pol\u00edticos (no plural) da classe oper\u00e1ria inglesa tiveram que ser constru\u00eddos na luta de classes, bebendo nas tradi\u00e7\u00f5es de organiza\u00e7\u00e3o e luta coletiva de artes\u00e3os, agricultores e demais segmentos que foram compor a classe oper\u00e1ria nos s\u00e9culos XVIII e XIX. N\u00e3o existiam de antem\u00e3o como \u201cprojeto pol\u00edtico pr\u00f3prio\u201d. A classe oper\u00e1ria precisou construir seus projetos e lutar por eles, e no processo incorporou segmentos decisivos das classes m\u00e9dias emergentes, sobretudo a partir do final do s\u00e9culo XIX (que n\u00e3o est\u00e1 no livro de Thompson, obviamente, sua an\u00e1lise termina nos anos 1830). Mes\u00admo a ideia de uma consci\u00eancia de classe dotada de conte\u00fados homog\u00eaneos e indisputados caiu por terra, j\u00e1 que diferentes partidos pol\u00edticos passariam a competir pelo voto e pelo engajamento dos trabalhadores, tornando-se eles mesmos (os partidos) agentes da constru\u00e7\u00e3o de interesses e identidades, de tal modo que a consci\u00eancia da classe oper\u00e1ria passou a ser mediada pela di\u00adn\u00e2mica pol\u00edtica eleitoral. E a classe, com o passar do tempo, tornou-se mais heterog\u00eanea e m\u00faltipla, como reconheceu, por exemplo, Friederich Engels (s.d.p. [1895]), o que o levou a considerar a via eleitoral (e social-democrata) como alternativa \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o no acesso ao poder pelo proletariado.<\/p><p>Em terceiro lugar, porque as ger\u00eancias autorit\u00e1rias identificadas por Saes ficaram, ao menos idealmente, no passado. Os novos ambientes de trabalho dependem da coopera\u00e7\u00e3o de todos, inclusive subalternos, na execu\u00e7\u00e3o n\u00e3o de produtos, mas dos projetos horizontalmente integrados etc. A luta de classes na f\u00e1brica e na empresa contempor\u00e2nea j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 a mesma de 40 anos atr\u00e1s, como mostraram Boltanski e Chiapello (2002). E por fim, \u00e9 incontest\u00e1vel que segmentos das classes m\u00e9dias compuseram as bases das esquerdas em todo o mundo, inclusive o Brasil, estando, por exemplo, na vanguarda da luta contra a ditadura militar, incluindo a luta armada (Reis Filho, 1989; Ridenti, 2010), e sendo basti\u00f5es inequ\u00edvocos dos estados de Bem-Estar em todo o mundo (Przeworski, 1989; Korpi, 1983).<\/p><p>Proponho aqui que ao menos alguns segmentos claramente identific\u00e1veis das classes m\u00e9dias se t\u00eam afirmado na esfera p\u00fablica, ao longo de nossa his\u00adt\u00f3ria recente, com projetos pol\u00edticos solidamente assentados em seu modo de inscri\u00e7\u00e3o na estrutura de classes e em seu etos coletivo. O mais articulado desses projetos, sustentado por setores politicamente mais coesos daquelas classes, n\u00e3o teve e n\u00e3o tem compromissos com a supera\u00e7\u00e3o das desigualda\u00addes sociais e o car\u00e1ter excludente da din\u00e2mica capitalista nacional. Muito ao contr\u00e1rio. Ele se alimentou e se alimenta das desigualdades, as valorizou ao longo da hist\u00f3ria e se contrap\u00f4s com veem\u00eancia a projetos alternativos. Um projeto propriamente conservador, assentado em estilos de vida e concep\u00e7\u00f5es de mundo pr\u00f3prios, ancorado numa \u00e9tica burguesa do trabalho de tipo webe\u00adriano, liberal, individualista, meritocr\u00e1tica e elitista. Outro projeto, tamb\u00e9m claramente identific\u00e1vel em diferentes conjunturas, teve por base ideias como igualdade, solidariedade e justi\u00e7a social, podendo ser nomeado progressista, com ra\u00edzes tamb\u00e9m em estilos de vida e concep\u00e7\u00f5es de mundo pr\u00f3prios. Em seu lastro, encontra-se uma \u00e9tica do trabalho assalariado, fruto das lutas sociais do s\u00e9culo XX, de que foram protagonistas, primeiro, o operariado, e depois, fra\u00e7\u00f5es das classes m\u00e9dias em processo de crescimento, sobretudo as classes m\u00e9dias baixas dos servi\u00e7os e aquelas vinculadas ao servi\u00e7o p\u00fablico e \u00e0s atividades culturais e intelectuais, que constitu\u00edram, ao lado da classe oper\u00e1ria, as bases de sustenta\u00e7\u00e3o dos estados de Bem-Estar no ocidente e tamb\u00e9m no Brasil. As fra\u00e7\u00f5es de classe que deram sustenta\u00e7\u00e3o a esse projeto nunca tiveram a mesma coes\u00e3o das que serviram e ainda servem de base ao projeto conservador. O pr\u00f3prio projeto tampouco teve unidade interna, variando muito ao longo da hist\u00f3ria, sendo mais ou menos radicalmente igualitarista, mais ou menos democr\u00e1tico, mais ou menos libert\u00e1rio segundo as diferentes quadras hist\u00f3ricas analisadas aqui. Mas conjunturas espec\u00edficas, que denomino \u201cmomentos serend\u00edpicos\u201d de nossa din\u00e2mica social e pol\u00edtica, transformaram os dois projetos, pela radicaliza\u00e7\u00e3o e polariza\u00e7\u00e3o da luta de classes caracter\u00edsticas desses momentos, em polos de atra\u00e7\u00e3o de outros, mais ou menos claros, mais ou menos expl\u00edcitos, formulados por outras coletividades, tais como fra\u00e7\u00f5es de classe, movimentos sociais e partidos pol\u00edticos, polariza\u00ad\u00e7\u00e3o e radicaliza\u00e7\u00e3o que pressionaram o ordenamento pol\u00edtico e institucional mais geral, resultando em solu\u00e7\u00f5es de continuidade e redefini\u00e7\u00f5es dos rumos do incessante processo de constru\u00e7\u00e3o estatal e das institui\u00e7\u00f5es de media\u00e7\u00e3o do conflito de classes no pa\u00eds. A tese central deste livro \u00e9 a de que as classes m\u00e9dias foram agentes decisivos, obviamente n\u00e3o \u00fanicos e nem sempre os mais importantes, nesses momentos cruciais nos quais os destinos da na\u00e7\u00e3o estiveram em disputa pelas classes sociais e seus representantes. (continua).<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong>SOBRE O AUTOR<\/strong><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/alacip.org\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Adal.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-34913\" width=\"142\" height=\"141\"\/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Adalberto Cardoso \u00e9 doutor em Sociologia pela USP e professor e pesquisador do Instituto de Estudos Sociais e Pol\u00edticos da UERJ. Suas pesquisas incluem temas da sociologia do trabalho (movimento sindical, mercado de trabalho, forma\u00e7\u00e3o de classe, reestrutura\u00e7\u00e3o produtiva, trajet\u00f3rias ocupacionais), sociologia urbana (segrega\u00e7\u00e3o espacial, viol\u00eancia, juventude e espa\u00e7o urbano), desigualdades sociais e teoria social. Entre suas publica\u00e7\u00f5es recentes destacam-se A constru\u00e7\u00e3o da sociedade do trabalho no Brasil: uma investiga\u00e7\u00e3o sobre a persist\u00eancia secular das desigualdades, Rio de Janeiro, FGV, 2010; e As normas e os fatos: desenho e desempenho das institui\u00e7\u00f5es de regula\u00e7\u00e3o do mercado de trabalho no Brasil, Rio de Janeiro, FGV (2007), com Telma Lage.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Link para aquisi\u00e7\u00e3o da obra<\/strong> (vers\u00e3o Kindle): <a href=\"https:\/\/www.amazon.com.br\/Classes-m%C3%A9dias-pol%C3%ADtica-Brasil-1922-2016-ebook\/dp\/B08778ZJJS\/ref=sr_1_5?__mk_pt_BR=%C3%85M%C3%85%C5%BD%C3%95%C3%91&amp;keywords=adalberto+cardoso&amp;qid=1588194605&amp;sr=8-5&amp;fbclid=IwAR3KTUfOjxLN7u4xkw9jchDjczHZplEh92PfgTvhpi5rX-Kfe4AKg1laoWE\">https:\/\/www.amazon.com.br\/Classes-m%C3%A9dias-pol%C3%ADtica-Brasil-1922-2016-ebook\/dp\/B08778ZJJS\/ref=sr_1_5?__mk_pt_BR=%C3%85M%C3%85%C5%BD%C3%95%C3%91&amp;keywords=adalberto+cardoso&amp;qid=1588194605&amp;sr=8-5&amp;fbclid=IwAR3KTUfOjxLN7u4xkw9jchDjczHZplEh92PfgTvhpi5rX-Kfe4AKg1laoWE<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sinopse O car\u00e1ter majorit\u00e1rio de classe m\u00e9dia dos movimentos de junho de 2013 (uma s\u00e9rie de mobiliza\u00e7\u00f5es de rua que transformou profundamente a cena pol\u00edtica brasileira e que foi iniciado na cidade de S\u00e3o Paulo entre 6 e 13 de junho em rea\u00e7\u00e3o ao aumento de vinte centavos nas tarifas de \u00f4nibus) se aprofundaria nos [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":88893,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_genesis_hide_title":false,"_genesis_hide_breadcrumbs":false,"_genesis_hide_singular_image":false,"_genesis_hide_footer_widgets":false,"_genesis_custom_body_class":"","_genesis_custom_post_class":"","_genesis_layout":"","footnotes":""},"categories":[53,7],"tags":[],"class_list":{"0":"post-34905","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","6":"category-libros","7":"category-menu-noticias","8":"entry","9":"has-post-thumbnail"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/alacip.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/34905","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/alacip.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/alacip.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/alacip.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/88893"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/alacip.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=34905"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/alacip.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/34905\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":34914,"href":"https:\/\/alacip.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/34905\/revisions\/34914"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/alacip.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=34905"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/alacip.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=34905"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/alacip.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=34905"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}